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Obra do premiado autor canadense Michel Marc Bouchard aborda a inabilidade do indivíduo para lidar com o preconceito, violência e fracasso.

Em cartaz desde março de 2017, o espetáculo “Tom na Fazenda estreia a nona temporada em 1º de fevereiro (sábado) no Teatro Petra Gold. Idealizado pelo ator e produtor Armando Babaioff, que também assina a tradução, a montagem tem apresentações de sexta a domingo, às 19h30, até 16 de fevereiro. Dirigida por Rodrigo Portella, a peça traz no elenco Gustavo Vaz, Camila Nhary e Soraya Ravenle (substituindo Kelzy Ecard), além do próprio Babaioff. Desde sua estreia, “Tom na Fazenda” fez 185 apresentações e já foi vista por mais de 25 mil pessoas.

A peça é baseada na obra Tom à la Farme, do autor canadense Michel Marc Bouchard. Foi numa conversa com um amigo que Babaioff tomou conhecimento do filme Tom na Fazenda (2013), adaptação da peça homônima, com direção do franco-canadense Xavier Dolan. Arrebatado pela obra, o ator começou a traduzir a peça, que aborda a inabilidade do indivíduo para lidar com o preconceito, a impotência, a violência e o fracasso.

Em cena, o publicitário Tom (Armando Babaioff) vai a uma fazenda no interior para o funeral de seu companheiro. Ao chegar, descobre que a sogra (Soraya Ravenle) nunca tinha ouvido falar dele e tampouco sabia que o filho era gay. Nesse ambiente rural e austero, Tom é envolvido numa trama de mentiras criada pelo truculento irmão (Gustavo Vaz) do falecido, estabelecendo com aquela família relações de complicada dependência. A fazenda, aos poucos, vira cenário de um jogo perigoso, onde quanto mais os personagens se aproximam, maior a sombra de suas contradições.

“No ano em que traduzi a peça, 347 pessoas foram assassinadas pelo simples fato de serem quem eram. O Brasil é o país que mais mata homossexuais no mundo, mais do que nos 13 países do Oriente e da África onde há pena de morte aos LGBT. O que me fascina em Tom na Fazenda é essa possibilidade de falar de assuntos que eu realmente acho necessário. Eu sinto essa necessidade de dizer para o mundo verdades das quais eu acredito”, diz Babaioff. “Manter o espetáculo em cartaz enquanto tiver público para nos assistir se tornou uma regra. Temos que resistir neste tempo em que a cultura é atacada de uma forma muito covarde e cruel”, completa Babaioff.

Tom na Fazenda” conta uma história bastante comum entre jovens de várias gerações, mesmo de culturas diferentes. No Canadá, no Brasil, no Oriente Médio, no Japão ou na África do Sul, homens e mulheres jovens aprendem a mentir antes mesmo de aprenderem a amar. As famílias, guardiãs das normas sobre a sexualidade, garantindo sempre a heteronormatividade, inserem nos próprios membros a semente da homofobia.

“Todo redemoinho que devastará a vida dos que fogem das normas surge no núcleo de suas próprias famílias”, comenta Rodrigo Portella, que opta, mais uma vez por uma encenação com poucos elementos para que as sutilezas das relações propostas pelo texto se sobressaiam. “Bouchard compôs uma obra de estrutura impecável. Ele vai fundo nas contradições dos seus personagens, o que os torna muito próximos de nós”, acredita o diretor.

TRAJETÓRIA DO ESPETÁCULO

 

Tom na Fazenda” estreou no Rio de Janeiro em março de 2017 no Oi Futuro, com patrocínio da Oi. As temporadas seguintes no Rio de Janeiro — nos teatros SESI Centro, Dulcina, Poeirinha, Cesgranrio, Leblon e no Imperator —, quase sempre com ingressos esgotados, no entanto, não tiveram qualquer recurso vindo de leis de incentivo. Este ano, o espetáculo vai circular pelo Canadá, Estados Unidos e França. De 3 a 12 de março, “Tom na Fazenda” cumpre temporada no Usine C, em Montreal, e, no dia 20 do mesmo mês, haverá uma apresentação no Quick Center for the Arts, em Connecticut. De 3 a 26 de julho, a peça faz parte da programação do Festival de Avignon.

Esta não é a primeira vez que “Tom na Fazenda” ganha carreira internacional. Em junho de 2018, o espetáculo foi apresentado no Festival TransAmériques (FTA), em Montreal, no Canadá –  um dos mais importantes eventos de artes cênicas do mundo —, com legendas em inglês e francês. A indicação foi do próprio autor da obra, o dramaturgo canadense Michel Marc Bouchard, que mora em Montreal e assistiu à peça em sua estreia, no Rio. As três apresentações naquele país renderam à peça o prêmio de melhor espetáculo estrangeiro pela Associação de Críticos de Teatro de Québec.

SOBRE MICHEL MARC BOUCHARD (autor)

Michel Marc Bouchard nasceu em Saint-Coeur-de-Marie, em Quebec, no Canadá. Formado em teatro pela Universidade de Ottawa, fez sua estreia profissional como dramaturgo em 1983 com Contre-nature de Chrysippe Tanguay, Écologist, e, desde então, escreveu mais de 25 peças que foram traduzidas em diversas línguas e apresentadas em muitos países e festivais. Bouchard foi condecorado Cavaleiro da Ordem Nacional de Quebec, em 2012.

Sua obra mais conhecida é Lillies (Les Feluettes ou la Répétition d’un Drame Romantique), que posteriormente foi roteirizada e dirigida por John Greyson em seu filme homônimo. The Painter Madonna foi sua primeira peça traduzida para o inglês. Entre suas obras mais conhecidas, destaque para The Coronation Voyage (Le Voyage du Couronnement), Down Dangerous Passes Road (Le Chemin des Passes-Dangereuses) e Written on Water (Les Manuscrits du Déluge). Sucessos no teatro, as peças The Orphan Muses (Les Muses Orphelines) e Tom at the Farm (Tom à la Farme) também foram adaptadas para o cinema pelos diretores Robert Favreau e Xavier Dolan, respectivamente.

Ao longo de sua carreira, Bouchard foi agraciado com importantes prêmios de artes cênicas no Canadá: Prix Journal de MontrealPrix du Cercle des Critiques de L’outaouaisMoore Award Dora Mavor for Outstanding New PlayFloyd S. Chalmers Award Canadian Play. Recebeu nove prêmios Jessie Richardson Theatre Awards para as peças Lillies e Les Muses Orphelines.

SOBRE ARMANDO BABAIOFF (Idealizador, tradutor e ator)

Formado pela escola Estadual de Teatro Martins Pena e pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UNIRIO) em Artes Cênicas. Como integrante da Quantum Cia. de Teatro, Babaioff fez de diversas montagens sob a direção de Rodrigo Portella. Em 2004, protagonizou, ao lado de Vera Fischer, A Primeira Noite de um Homem, com direção de Miguel Falabella.

No teatro, participou ainda dos espetáculos O Santo e a Porca (2008), de Ariano Suassuna, com direção de João Fonseca, pelo qual foi indicado ao prêmio de melhor ator coadjuvante pela APTR; A Gota d’Àgua (2009), de Chico Buarque e Paulo Pontes, também com direção de João Fonseca; Rockantygona (2011), baseado na obra de Sófocles, com direção de Guilherme Leme Garcia; Escola do Escândalo, de Richard B. Sheridan, com direção de Miguel Falabella; A Propósito de Senhorita Júlia, de August Strindberg, dirigida por Walter Lima Jr.; O que Você Mentir Eu Acredito, de Felipe Barenco, com direção de Rodrigo Portella.

Em 2009, criou a produtora ABGV Produções Artísticas, em parceria com o amigo e ator Gustavo Vaz. Pela primeira vez atuou também como produtor de teatro, com a peça Na Solidão dos Campos de Algodão, com texto de Bernard Marie Koltès e direção de Caco Ciocler. O espetáculo lhe rendeu uma indicação ao Prêmio de Melhor Ator pela APTR.

Na TV, pode ser visto interpretando o personagem Diogo Cabral em Bomsucesso, onde viveu seu primeiro vilão na tv, indicado ao Prêmio Melhores do Ano. Antes disso esteve em Segundo Sol, de João Emanuel Carneiro, também na TV Globo. Estreou na emissora na novela Páginas da Vida (2006), de Manoel Carlos. Também na Globo, participou das novelas Duas Caras (2010/2011), Ti-ti-ti (2010), Sangue Bom (2013) e A Lei do Amor (2016). Protagonizou a série DOAMOR, ao lado da atriz Maria Flor, no canal Multishow.  No cinema, protagonizou o longa Prova de Coragem, baseado no romance Mãos de Cavalo, do autor gaúcho Daniel Galera e com a direção de Roberto Gervitz. Recentemente, protagonizou o filme “O Homem Livre” com a direção de Alvaro Furloni que estreou nos cinemas de todo Brasil em 2019.

SOBRE RODRIGO PORTELLA (diretor)

Natural de Três Rios, no interior do Rio, Rodrigo Portella é formado em Direção Teatral pela UniRio.  Em 27 anos de carreira, dirigiu 23 espetáculos e escreveu nove peças teatrais, sendo indicado quatro vezes ao Prêmio Shell pelas peças Uma História Oficial (2013), Antes da Chuva (2014),  Alice Mandou Um Beijo (2016) e Insetos (2018).  Esta última em comemoração os 30 anos da Cia dos Atores.

Foi com Antes da Chuva, da Cia Cortejo, que Portella começou a ser reconhecido por seu trabalho. Com ela, percorreu dezenas de cidades pelo projeto Palco Giratório, participou dos maiores festivais de teatro do país, além de turnês na Argentina, Equador, Alemanha e Chile. Matérias na imprensa legitimaram e reconheceram a importância do movimento feito por Portella na contramão do senso comum, por trocar, em 2010, a capital pelo interior, como espaço potencial para a verticalização do seu processo criativo, funcionando como um impulso para a circulação nacional. Em Três Rios, dirigiu por quatro anos o Festival Internacional Off Rio, os Pontos de Cultura Teatro Aberto e o Centro de Produção Audiovisual.

Atualmente, circula também com os espetáculos Os Impostores (2019) As Crianças (2019), esse último indicado a 14 prêmios em diversas categorias no Rio e em São Paulo. Portella também se dedica à sua pesquisa de mestrado em direção pela UniRio. É também professor do curso superior de teatro do Instituto Cal de Arte e Cultura.


SERVIÇO:

 

TOM NA FAZENDA

Temporada: de 1 a 16 de fevereiro de 2020.

Apresentações: de sexta a domingo, às 19h30.

Local: Teatro Petra Gold – Sala Marília Pêra. Rua Conde de Bernadotte 26, Leblon. Tel.: 2529-7700.

Ingressos: R$ 70 (sexta e sábado) e R$ 80 (domingo) – meia-entrada para os casos previstos em lei.

Classificação etária: 18 anos.

ENDEREÇO

Rua Conde Bernadotte, 26 - Leblon
Rio de Janeiro - RJ
22430-200

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